Na contramão da cultura do consumo e produção em massa, as marcas slow fashion apresentam um novo jeito de fazer e consumir moda

Por Ana Angélica Mattos Fotos: Divulgação

Você já se perguntou qual o caminho percorrido por aquela camiseta branca que habita seu guarda-roupas? Eu já. Hoje, por exemplo, me vesti e percebi que estou usando calças e camiseta que vieram diretos da China. O mais curioso? A marca que estampa as etiquetas é norte-americana.

O termo ‘sustentabilidade’ já não é nenhuma novidade para as pessoas, mas, nos últimos tempos a temática vem se tornando cada vez mais presente no cotidiano da sociedade e inevitavelmente, começa a influenciar as práticas de diversas organizações. No segmento da moda, o surgimento de marcas slow fashion, caracterizadas principalmente por uma produção desacelerada e pelo incentivo ao consumo mais consciente, é uma das grandes evidências dessa transformação.

Ora, pode soar estranho associar sustentabilidade à indústria da moda, um segmento reconhecido por suas práticas de incentivo ao consumo e pelos impactos causados ao meio ambiente. No entanto, muitas marcas vêm provando que é possível fazer diferente e, mesmo assim, se manter no mercado de forma competitiva.

Afinal de contas, o que são marcas slow fashion?

O movimento slow nasceu em meados dos anos 1980 e se aplica a diversas áreas, mas o setor alimentício foi seu pioneiro, com o surgimento do conceito Slow Food, proposto pelo jornalista Carlos Petrini, como resposta às grandes cadeias de Fast Food.

Inspirando-se nesse formato, o slow fashion surge como um movimento sustentável na indústria da moda, utilizando novas alternativas de produção e por consequência, gerando novas formas de consumo.  Como o próprio nome já diz, trata-se de uma moda mais devagar, focada em designs exclusivos e que envolvem a utilização de recursos naturais de forma a causar menor impacto no meio ambiente e, sempre que possível,  priorizando produtores locais.

A partir dessa ideia, o slow fashion propõe uma ruptura com as práticas tradicionais de consumo, promovendo uma consciência mais ética, baseada em qualidade e não em quantidade. Tem-se, portanto, os três pilares que sustentam o slow fashion: consumo consciente, ético e sustentável.

Vert | Divulgação

Flávia Aranha | Divulgação

Caminhando na contramão

A sustentabilidade na moda surgiu, como dito anteriormente, como uma alternativa ao fast fashion, ou seja, o sistema que prioriza a produção em massa, com a criação de tendências rápidas, modelos efêmeros, preços atrativos e exploração de recursos e mão-de-obra de baixo custo.

Documentários como The True Cost (2015), e movimentos como o Fashion Revolution,  buscam abrir os olhos dos mundo para os custos e impactos reais da comercialização de roupas baratas, geralmente produzidas em fábricas precárias em países como China e Índia, às custas da exploração de uma mão-de-obra desqualificada e mal remunerada. Além disso, reafirmam que a indústria têxtil é reconhecidamente uma das maiores responsáveis pelos impactos negativos causados ao meio ambiente.

Tanto o documentário, dirigido por Andrew Morgan, como o movimento Fashion Revolution, criado por  Carry Somers e Orsola de Castro, surgiram após o colapso de Rana Plaza, uma fábrica de roupas em Dhaka, Bangladesh. A tragedia que tirou a vida de mais de 1.000 pessoas e feriu outras tantas, é tida por muitos como um despertar para as questões humanas e ambientais que, até então,  estavam escondidas nos bastidores da moda.

Fashion Revolution Brasil | Divulgação

Com tais questões ganhando cada vez mais destaque na mídia, pode-se dizer do surgimento de um consumidor cada vez mais antenado e exigente, que pensa duas vezes antes de adquirir essa ou aquela peça para seu guarda-roupa. Assumindo uma postura mais crítica, o consumidor contemporâneo se mostra cada vez mais cético diante de discursos pouco transparentes e exige cada vez mais responsabilidade por parte das marcas com as quais se conecta e os produtos que consome.

Slow Fashion x Fast Fashion

Marcas como Zara, Forever 21, H&M e Riachuelo trabalham com o calendário de produção em ritmo acelerado. Diferente do padrão da moda, que trabalha com coleções para primavera/verão e outono/inverno, as grandes redes de Fast Fashion levam novas coleções para suas araras quase semanalmente. Além do ritmo, essas cadeias comercializam produtos por preços baixíssimos.

No sistema Slow Fashion, os preços são naturalmente mais elevados, pois estamos falando de uma produção em volume consideravelmente menor, utilizando matéria-prima de qualidade, trabalhos manuais e mão-de-obra qualificada e bem remunerada. A filosofia é “menos é mais”.

The Made in America Movement | Divulgação

A acessibilidade de preços das grandes cadeias de moda rápida fez com que pessoas de classes menos favorecidas tivessem mais acesso às novidades e tendências e isso pode, muitas vezes, ser encarado como uma democratização da moda. Mas será mesmo?

Classes mais baixas consomem produtos caros e isso é um fato. Nesse caso, seu comportamento de consumo, geralmente, se baseia em marcas consagradas, conhecidas e de boa reputação. Aqui, portanto, está um dos grande desafio da moda sustentável: convencer o consumidor a comprar de uma marca menor, por um preço mais elevado, baseando-se em sua origem ética, envolvimento de uma cadeia de produção responsável e entregando produtos atemporais e com vida útil elevada.

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