Por Camilla Ginesi

A mineira Susana Barbosa, diretora de redação da revista Elle Brasil, fala sobre a importância das marcas defenderem causas e da necessidade das revistas de moda romperem com estereótipos. Ela também dá dicas de roupas atemporais e opina sobre os eventos de moda nacionais e internacionais.

O que uma marca de moda precisa fazer hoje para conseguir atrair consumidores?
Acredito que, quanto mais as marcas conseguirem construir sua comunicação em cima de um conteúdo verdadeiro e engajado, melhor. Obviamente, sem deixar de entregar um bom produto. O consumidor mais jovem, que é extremamente conectado, é quem vai manter as marcas no futuro. Ele não quer só consumir um produto, quer consumir um produto que tenha uma história por trás, uma história que seja verdadeira.

Quais são as marcas internacionais e nacionais que se destacam atualmente?
Fora do Brasil, algumas marcas de luxo estão revolucionando a forma como se comunicam com o consumidor, seja por meio do desfile, da campanha ou da coleção. As marcas de luxo são um bom exemplo, porque sempre foram muito tradicionais e tiveram políticas muito rigorosas sobre o que pode e o que não pode ser feito. Hoje, algumas dessas marcas, como a Gucci, a Balenciaga
e a Dior, têm liderado uma mudança enorme no mercado. A Dior, quando a Maria Grazia Chiuri incorporou o feminismo, a Balenciaga, quando começou a fazer uma moda que é muito mais próxima da moda de rua, e a Gucci, quando trouxe para seu universo personagens que o mercado de luxo não gostava antes. Também a Calvin Klein, depois da chegada do Raf Simons. Já no Brasil, acho que estamos vivendo um momento propício para as marcas menores, de estilistas que fazem uma moda um pouco mais autoral, mais focada no universo do street style.

Qual cidade do mundo você elegeria como a capital da vanguarda de moda?
Acho que a vanguarda está em algumas cabeças. E essas cabeças saíram de vários lugares. O Demna Gvasalia, que assumiu Balenciaga, tem um pensamento de vanguarda e é da Geórgia. O Virgil Abloh, que criou a Off-White e assumiu agora o masculino da Louis Vuitton, é norte-americano filho de ganeses. O Raf Simons é belga. A estilista mais de vanguarda de todas, na minha opinião, é a Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, que é japonesa.

Qual é sua opinião sobre eventos como o Minas Trend, a Couromoda, a Francal, a Bijoias e a Zero Grau?
Acho que alguns deles mudaram muito ao longo dos anos e perderam relevância. Os do setor calçadista foram os que
mais perderam, pelo menos para a imprensa. Esses eventos são feiras de negócios, muito diferentes de semanas de
moda. Então, acho que, quando a feira de negócios não tem a pretensão de ser uma semana de moda, ela tem um
papel claro, cumpre uma função. É importante que ela exista. Além disso, é bacana quando uma feira de negócios
tem as marcas bem posicionadas, tem uma curadoria legal. Isso também faz diferença.

Que dica atemporal você daria para o lojista praticar de olhos fechados?
Uma coisa atemporal é a alfaiataria, seja de que tecido for. E acho que outra é o esporte. Acho que qualquer peça com referência esportiva vai ter uma vida longa por muitas coleções, inclusive porque ela pode ser misturada com tudo. Vimos, por exemplo, o tênis voltar com tanta força, para o dia a dia, para o trabalho, para as festas.

Você pode apontar três estilistas que fazem a diferença atualmente?
No Brasil, o Alexandre Herchcovitch, sempre. Fora do Brasil, o Alessandro Michele, da Gucci, e o Raf Simons, para falar dos mais novos.

Qual é a personalidade fashion que você mais admira atualmente?
A estilista que saiu da Céline, a Phoebe Philo. Ela, para mim, é a estilista mais sofisticada, elegante e atemporal. Ela deixou a Céline agora e ninguém sabe para onde ela vai, nem se vai para algum lugar. Admiro-a pela personalidade, sempre discreta, pelo trabalho, pelo talento. Não é uma estilista que promove grandes revoluções, mas a admiro também como pessoa, o fato de ela não abrir mão da relação com os filhos, por exemplo.

O que você tem achado dos grandes eventos internacionais de moda?
Todas as semanas de moda estão passando por mudanças, principalmente a Semana de Moda de Nova York. Algumas marcas tentaram o see-now, buy-now, mas estão revendo esse modelo. A Burberry, por exemplo, foi umas das primeiras a entrar nesse movimento e agora está voltando atrás. Além disso, hoje, a moda tem sido mais comercial, mais pé no chão. Então, acho que, nesse sentido, todas as semanas de moda estão muito parecidas, não têm grandes surpresas. Mas acho que Paris e Milão
ainda têm mais força. O que eu percebo é que os desfiles de cruise das marcas, que são fora da temporada, são muito mais interessantes do que as semanas de moda. Eles acontecem em lugares diferentes, muitas vezes inusitados, não necessariamente nas cidades tradicionais. E são uma imersão na marca, são mais do que desfiles, são experiências, com pelo menos três dias de programação, que envolve o desfile, uma festa, um show. A imprensa do mundo inteiro está ali só para isso.

Susana Barbosa | Foto: Divulgação

Você diria que a moda está mais engajada?
Sem dúvida. Acho que hoje, no mundo em que vivemos, é importante se posicionar. As marcas que se posicionam, que defendem causas, que têm uma verdade e que assumem qualquer posição que seja boa para o mundo conseguem falar com o novo consumidor, que está interessado nisso. Esse novo consumidor não compra só produtos, compra marcas que são verdadeiras no seu discurso e nas suas ações. Qual é o papel da revista de moda hoje em dia? A revista de moda tem um papel fundamental. Ela precisa rever seu posicionamento em relação a questões que sempre oprimiram as mulheres. Por exemplo, o discurso do corpo perfeito, a imposição de um padrão de beleza, muitas vezes do padrão europeu. Isso está em franca decadência. É função da revista de moda romper com esse discurso tão estereotipado da beleza e da moda e se abrir para ser mais inclusiva e diversa. Nem todas as revistas estão conseguindo fazer essa transformação, acordar para isso, mas a Elle Brasil eu acho que está.

E qual é o futuro da comunicação de moda?
Acho que o futuro é esse, falar de inclusão.

Você diria que as redes sociais transformaram a moda?
Acho que transformaram, sim, para o bem e para o mal. Mas essa é uma pergunta muito complexa.

Como você vê a moda daqui a 15 anos? Vai ser mais básica, mais sustentável?
Mais sustentável, com certeza. Se não for, provavelmente, muitas marcas vão morrer, porque quem vai escolher se essas marcas vão continuar vivas é uma geração muito mais consciente. Acredito que a produção desenfreada do fast fashion, por exemplo, é um modelo que não vai ter tanto espaço quanto tem hoje. Acho também que a tecnologia vai ajudar a mudar a forma como consumimos moda.

Você acha que o fast fashion atrapalha a moda?
Não dá para dizer que atrapalha. Mas acho que o fast fashion precisa rever algumas questões. Por exemplo, sabemos que, muitas vezes, há trabalho escravo no fast fashion. Isso é inadmissível. As empresas precisam ser mais transparentes. Também há a questão do excesso de produção. Não sei se o mundo daqui a alguns anos vai precisar de tanto. Acho que a tendência é que as pessoas consumam menos, consumam de forma mais consciente.

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