Por Ana Helena Miranda Fotos: Agência Fotosite

Consuelo Blocker respira moda desde que nasceu. Filha de Costanza Pascolato, a blogueira foge do lugar-comum na estratosfera digital, e vai muito além dos looks do dia. Com olhar afiado, Consuelo entende como ninguém o vai e vem da moda, seus meandros e percalços e faz questão de compartilhar esse conhecimento com seu público. É capaz de transformar algo banal em uma  verdadeira aula de cultura fashion. Alquimia pura!  Nessa entrevista feita durante o Minas Trend, ela fala sobre a importância do digital, do estilo e como as tendências atualmente são artigo raro no mercado da moda.

O que é moda mineira para você? Qual a sua primeira lembrança?

Eu trabalhei para a tecelagem da minha família, a Santa Constância, vários anos. E lá a gente rodava o Brasil com uma apresentação de tendências e eu vinha muito a Minas. E logo a gente via, quando chegava aqui, que há uma moda forte. Até pouco tempo atrás ela era conhecida muito pelos bordados, mas hoje em dia, acredito que por causa de iniciativas como o Minas Trend, sinto que o mercado é mais unido. Um exemplo é o Grupo Nohda, que criou um valor de moda alto em Minas.

Qual o diferencial da moda mineira?

Acho que o diferencial é a união de todos, mais do que a moda em si.

 

Foto: Bárbara Dutra/FOTOSITE

Quando você chega a BH, o que você faz questão de fazer?

Comer pão de queijo, amo de paixão! Além disso, rever os amigos. Eu venho para cá há quase cinco anos, então eu criei laço, amizades, a maioria da moda, e faço questão de sair para jantar com todo mundo.

O que os lojistas não podem perder no Minas Trend?

Gosto da Caleidoscópio, a Cláudia Arbex também é ótima e acho muito legal o Ready to Go, sempre encontro um talento novo lá. Mas acho que como não é uma feira tão grande, a dica é fazer um zigue-zague, já que tudo é muito organizado.

Como blogueira, você está sempre conectada no seu dia-a-dia. Quais os ponto negativos e positivos da internet para você quando o assunto é moda?

Falando da questão do look do dia, o que a blogueira fez foi traduzir para um povo que é muito jovem e inseguro, como o brasileiro, como usar moda. As revistas começaram a ficar tão linkadas com os anúncios, que o editorial acabou ficando falso. Quanto ao look do dia, a blogueira consegue passar uma informação mais real do que o editorial. O editorial é sonho, ele teve que se diferenciar por causa da internet, e ele se limita por causa de algumas responsabilidades comerciais. Por causa disso, o look do dia é mais forte no digital do que no impresso. Agora, se você falar da análise de um desfile, de um momento comercial, aí o jornalista é alguém essencial. Não importa se é digital ou impresso. Você tem que seguir quem realmente é bom. Por exemplo, o The Business of Fashion tem muita informação e credibilidade. E nele há jornalistas que expressam sua opinião. Acho que é muito genérico falar que o digital fez ou não fez uma coisa. Eventualmente, eles vão procurar a qualidade que eles entendem. Há um povo enorme e pouco informado, infelizmente, que não consegue entender um texto muito elaborado. E isso não é culpa do digital, do jornalista e nem da blogueira. É da educação do país. Acho perigoso generalizar o papel do digital, porque o que realmente vale é o papel da informação.

Você não sente falta da moda que te faz sonhar? Uma moda mais arte?

Hoje em dia o comercial comanda, então eu acho que a moda “sonho”  você vai encontrar mais em arquivos fotográficos, por meio de grandes fotógrafos como Helmut Newton e Irving Penn, ou mesmo a Grace Coddington. Os editores que faziam isso ou faleceram ou estão saindo das revistas.

O mercado então está mudando?

Tudo muda. Houve algo muito importante no mercado da moda, quando, nos anos 90, começaram a se criar grupos como o PPR, que agora chama-se Kering e o LVMH. Ambos fizeram disso um business. Eles não estão interessados em criar tanto moda quanto ter um lucro. Por isso que um estilista dura às vezes só quatro estações, porque ele não está respondendo com o lucro. Eles não querem mais a alma do estilista. Tanto que eles falam que a marca é independente do estilista. Tentaram fazer marcas em que o estilista não era importante, mas não funcionou. Isso falando da alta moda. Ela precisa ter uma alma. Se não, não faz sentido. Quando os grupos começaram a tirar a alma da marca foi que o mercado mudou.

O mercado ficou mais comercial.

Quando os grupos começaram a ficar fortes, a publicidade influenciou mais os editoriais. Tudo foi uma mudança do sistema da moda. Quando você fala da metade do século 20, se depara com Saint Laurent e Dior, que eram pessoas que não podiam fazer outra coisa, assim como um poeta. Ele precisa do papel branco. Eu não, eu tenho pânico de papel branco. Quando eu começo a fazer um post eu sofro. Eu não sou uma pessoa que escreve e é o que eu mais faço hoje em dia. O artista ele precisa da tela dele. O estilista da metade do século passado precisava se exprimir, ele criava informação de moda. Hoje não. Hoje eles querem vender. Tanto que todo mercado de luxo faz publicidade classe A, mas para vender para classe B. Luxo, minha mãe fala, “era raro e caro. Hoje é só caro”.

Qual o conceito de luxo para você?

Eu fiz uma foto no Instagram de um vestido que eu comprei na Itália, de uma marca minúscula, e eu não sabia como creditá-lo. As pessoas não iam encontrá-lo, a marca nem tem Instagram. E era uma roupa linda, um vestido branco de linho. A exclusividade é muito mais uma marca pequena, que você encontra numa cidade de praia da Itália do que a Prada. Prada você encontra em qualquer lugar. O luxo, ele é por definição classista. Hoje em dia, uma Louis Vuitton é usada pela chefe e a secretária. Você vê que todos os parâmetros e definições relacionados à moda mudaram. E não quer dizer que seja pior. Mais gente se veste bem. Tem sempre um lado positivo. Você não pode usar o velho jeito de ver as coisas para analisar o que está acontecendo agora. Você tem que ver qual é a transição. Então não é justo demonizar digital ou o impresso, porque tudo faz parte de um processo de transmutação.

Quando você pesquisava para a Santa Constância, o que você reparava?

Hoje em dia é mais uma questão de comportamento do que de roupa. Você vai treinando o olho, e aí chega em certo ponto que você vê uma coisa, pode ser na rua, no cinema, num desfile, algo que te marca, que te impacta. Se você vê uma vez só não é muito relevante, pode ser algo que você gostou, só isso. Quando eu via uma mesma coisa repetida três vezes eu entendia que era o início de uma tendência. Acho que para ser uma tendência você tem que ver três vezes em um lugar que você respeita.

Como Londres, por exemplo.

É, Londres para mim sempre foi mais forte. Aquela tendência de barriga de fora, a primeira vez que eu vi foi em um metrô de Londres. Aquilo me impactou, porque mesmo que me chocasse, não estava errado. E aquela imagem ficou. E não tem regras. As popozudas, por exemplo. Elas foram uma tendência. Eu sempre falo. Eu respeito quem tem estilo. Muitas blogueiras são vítimas da moda. Se você for a uma loja, você não sabe o que dar para elas, porque elas não tem estilo de verdade.

E como é encontrar tendências hoje?

Encontrar tendências hoje é mais difícil, porque tem menos e menos moda. Eu acho que tendência não funciona mais, porque o que acontece é que com toda divulgação de informação, as pessoas buscam o que elas se identificam. Então, é muito mais uma questão de estilo do que tendência. Cada marca deveria ter o seu estilo e segui-lo.

Pin It on Pinterest